Duas gerações de arquitectos identificam, em tempos paralelos, aquilo que os preocupa em relação àquela arte. Divergências em sentido convergente.

“É tarde demais”. Depois de décadas seguidas a destratar as cidades – a construir ao deus-dará, sem qualquer plano de conjunto ou um mínimo de rigor estético – já não há nada a fazer pelo urbanismo português. É por isso que, para Rogério Cavaca – um dos arquitectos mais conceituados do país e um dos mais prolíficos da ‘velha’ Escola de Arquitectura do Porto – já “é tarde demais” para inverter este estado de coisas.

Bem mais nova, Inês Lobo parece não ter uma visão tão catastrófica do que são hoje as cidades portuguesas. E, apesar de descobrir algumas aberrações na paisagem lisboeta, continua a crer que a sua ‘chama’ é suficiente para manter “uma identidade própria, muito forte”.

Mas os dois arquitectos de gerações tão distantes acabam por convergir num ponto: o principal culpado é o poder político, e por maioria de razão o que lhe está mais próximo – o poder autárquico. “Não tenho trabalhado muito com as autarquias; são muitas vezes as responsáveis pelas piores coisas que se constroem nas cidades”, afirma Inês Lobo. Rogério Cavaca segue o mesmo registo – que no caso é suportado pela experiência pessoal acumulada.

As divergências voltam a surgir quando se procuram outros rostos da culpa (caso existam): a arquitecta concorda que a classe deve ser mais firme e habituar-se a não dizer ‘sim’ a tudo o que lhe é proposto; mas o arquitecto do Porto guarda-se no que considera ser a atitude profissional de nunca dizer que ‘não’.

Fonte: Sapo