Na semana passada chegámos aos 7 mil milhões de habitantes na Terra. Numa tentativa de perceber melhor o significado deste número, contatámos o professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa Filipe Duarte Santos que, às perguntas do Planetazul. O especialista em alterações climáticas reconhece que o aumento da população global “cria desafios enormes no que respeita à satisfação da procura de energia, à segurança alimentar, à escassez dos recursos naturais e à degradação ambiental”, mas o maior problema é mesmo enfrentar estes problemas com um “sistema que cria desigualdades crescentes”.

Chegamos aos 7 mil milhões. O que significa sermos 7 mil milhões de pessoas na Terra?

Já chegámos aos 7 mil milhões e a população humana vai continuar a crescer, prevendo-se que atinja cerca de 9200 milhões, em 2050. Note-se porém que a taxa de crescimento anual tem estado a baixar desde o princípio da década de 1960 e este decrescimento tem sido contínuo.

A partir de 2050, as projeções são menos fiáveis, mas é provável que cresça de modo cada vez mais lento, até atingir um máximo, e depois começar a decrescer. Valores tão elevados e ainda fortemente crescentes da população global têm consequências gravosas para o sistema terrestre, ou seja, para o ambiente global, mas sobretudo para a humanidade e para a qualidade de vida da esmagadora maioria das pessoas.

O problema para o ambiente e para a sustentabilidade do uso dos recursos naturais resulta sobretudo do paradigma vigente de crescimento económico contínuo e ilimitado e das crescentes desigualdades de desenvolvimento e muito menos da dimensão da população global. Por outras palavras, seria possível termos um desenvolvimento global sustentável se adotássemos um novo paradigma social e económico baseado na equidade, na compatibilidade ambiental e no uso sustentável dos recursos naturais renováveis e não renováveis. Se persistirmos no atual paradigma teremos muito provavelmente crises futuras recorrentes e um risco crescente de conflitos violentos com tendência para se generalizarem.

De acordo com o biólogo Edward O. Wilson dez mil milhões é o limite de crescimento. Acredita neste ponto de rutura?

Nas publicações científicas sobre o assunto há uma grande variedade de estimativas. Dez mil milões é um valor referido com frequência, mas penso que poderíamos atingir valores mais altos. A consequência de valores muito elevados é a degradação violenta da qualidade de vida da maior parte da população e o risco de conflitos gerados pela escassez de recursos naturais e pela degradação do ambiente. Penso que a população global irá atingir cerca de 9500 milhões antes do fim deste século. Se este máximo for atingido num contexto de crises financeiras, económicas e ambientais frequentes o maior risco é o colapso da população humana e não o seu crescimento. Se conseguirmos encontrar caminhos para novos conceitos e valores de prosperidade das populações desacoplados de um crescimento económico baseado no uso insustentável da energia e dos recursos naturais, então será possível diminuir o risco de crises.

Há uma relação entre a população mundial e as alterações climáticas?

Não tenho de modo nenhum uma visão catastrófica da evolução futura da humanidade. Creio que a nossa espécie biológica tem uma imensa capacidade de adaptação a situações novas e difíceis. Porém, é necessário ter presente que há duas vias. A nossa aprendizagem pode ser feita de uma forma proativa e racional ou de uma forma reativa sob o impacto de crises. Na situação atual do mundo, a maior parte dos sinais apontam para a segunda via.

O nosso paradigma de crescimento baseia-se no uso intensivo de energia e cerca de 80 % das fontes primárias de energia são combustíveis fósseis cuja combustão emite dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera. Quanto maior for a população humana global e quanto maior for o consumo de combustíveis fósseis maior é a probabilidade de que as alterações climáticas tenham impactos gravosos em muitos setores sócio-económicos e sistemas biogeofísicos.

As Nações Unidas advogam que a temperatura média global da atmosfera à superfície não deve aumentar mais de 2.ºC, relativamente ao período pré-industrial. Para cumprir este objetivo é necessário que as emissões de CO2 não excedam 750 Giga toneladas desde 2011 até 2050. Porém se o total das reservas conhecidas de petróleo, de gás natural e de carvão fossem inteiramente utilizadas isso corresponderia a um volume de emissões cerca de 118 vezes superior ao valor máximo referido. Seremos todos capazes de usar sistemas energéticos mais eficientes, poupar energia e substituir os combustíveis fósseis por energias renováveis? É um desafio muito grande, mas é possível enfrentá-lo com sucesso.

Como se atinge a sustentabilidade, ou um mundo mais “verde”, com tantos habitantes?

O problema principal não é o número de pessoas no mundo, mas a insustentabilidade financeira, económica e ambiental do sistema global de desenvolvimento. A população do conjunto dos países desenvolvidos está estabilizada e a taxa de fertilidade na grande maioria dos países em desenvolvimento está a baixar. O aumento da população global cria desafios enormes no que respeita à satisfação da procura de energia, à segurança alimentar (no sentido de assegurar uma alimentação suficiente), à escassez crescente dos recursos naturais e à degradação ambiental.

Contudo o maior problema é enfrentar estes desafios com um sistema de desenvolvimento que cria desigualdades crescentes e que se tem revelado incapaz de diminuir significativamente a pobreza extrema e a fome de cerca de mil milhões de pessoas.

Fonte: Baseado na notícia do Planetazul (on line)

*Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico